Fechamento de escolas expôs importância dos professores no cuidado dos alunos

ISABELA PALHARES, SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) –

Ao entrar em uma sala de aula, os professores sabem que o conteúdo a ser ensinado é apenas uma das preocupações. Eles estão sempre atentos ao comportamento dos alunos e a sinais que indiquem se estão bem física, emocional e socialmente.

O fechamento das escolas durante a pandemia evidenciou como esse cuidado é importante para o bem estar dos estudantes e, consequentemente, para a aprendizagem. Durante os mais de 18 meses de oferta de ensino a distância, professores de São Paulo recorreram a email, cartas, ligações telefônicas, chamadas de vídeo e até a visita à casa das crianças para garantir que elas estavam bem.

Nesta sexta (15), é comemorado o dia do professor no país.
“O professor quando entra em sala de aula nunca é só professor. Não se preocupa só em passar um conteúdo na lousa. Ele é amigo, conselheiro, psicólogo, assistente social. Faz papel de mãe, pai, avó, tia. Sempre fizemos isso, a pandemia só evidenciou a importância dessas nossas outras atuações”, conta Ana Maria Sousa, 61, professora há 41 anos na rede municipal de São Paulo.

Para ela, grande parte da angústia com o fechamento das escolas foi causada pela perda do contato com os alunos. Sousa sempre deu aula para crianças da educação infantil ou nos anos iniciais do ensino fundamental, quando elas começam a ser alfabetizadas.

“Em geral, o professor é o primeiro a perceber que uma criança precisa de óculos. Esse é só um exemplo do olhar atento que temos, mas nós percebemos outras situações, como o indício de que a criança pode não se alimentar bem ou que apanha em casa. Como fazer isso a distância?”

A sensação de impotência em ajudar os alunos é um dos fatores que pesaram na saúde mental dos professores durante a pandemia. Uma pesquisa feita pela Associação Nova Escola identificou que a percepção sobre bem estar mental dos docentes melhorou após o retorno das aulas presenciais.
Entre agosto e setembro deste ano, 47,8% dos professores avaliaram sua saúde mental como boa ou excelente. Há um ano, eram 26%.

“Se sentir impotente é um dos fatores que leva ao burnout. Para os professores, essa sensação era dupla, porque viram o aprendizado dos alunos decair e sabiam que eles passavam por outras dificuldades em casa sem poder ajudá-los”, conta Rodrigo Bressan, psiquiatra e presidente do Instituto Ame sua Mente, que atua para promover a saúde mental de educadores.

Eduardo dos Reis Neto, 37, professor da escola municipal Badra, em Perus, zona norte de São Paulo, foi um dos que sentiu essa apreensão ao se ver longe dos alunos. “No começo, passamos semanas e até meses sem ter notícias de algumas crianças. Não sabíamos se não estavam acompanhando por não ter celular, internet ou por outro motivo.”

Ele então decidiu ligar para os alunos que não apresentavam as tarefas online. Depois, resolveu ir às casas das crianças. Nessas visitas, identificou famílias que viviam a perda de um parente, do emprego ou estavam passando fome. Os professores então arrecadaram alimentos e kit higiene para distribuir aos estudantes.

“O conteúdo escolar é a base do nosso trabalho, mas nada adianta se as questões sociais não estiverem bem resolvidas. Nós sempre tivemos essas preocupações, que vão além do currículo, mas elas não ficavam evidentes porque nós resolvemos dentro da escola”, conta.

O trabalho de busca dos alunos em casa começou ainda no primeiro semestre deste ano, mas ainda continua, já que muitos ainda não retornaram. Segundo Neto, só nas últimas duas semanas, os professores foram atrás de 35 alunos –27 voltaram a frequentar a escola após esse contato.
“Ainda teremos um trabalho longo pela frente, não vai ser só sentar as crianças na sala e ensinar o conteúdo que faltou nesse período.”

O professor conta que conversas sobre luto, desemprego e fome estão cada vez mais frequentes dentro da escola. “Os alunos têm trazido essas questões que antes não eram tão comuns.”

Uma aluna do 4º ano do ensino fundamental, por exemplo, contou aos professores quando retornou às aulas que a mãe perdeu o companheiro e o emprego durante a pandemia. “Essa criança lidou por meses com o luto, fome, insegurança, sem ter com quem conversar, quem a ajudasse. Em poucos dias na escola, nós a acolhemos e passamos a procurar soluções para a família.”

Alexandre Schneider, presidente do Instituto Singularidades, diz que professores e escolas sempre exerceram esse papel de cuidado global das crianças, mas nunca receberam o suporte necessário para isso. Por isso, avalia que o retorno às aulas presenciais precisa empoderá-los e dar instrumentos para que continuem fazendo esse trabalho.

“A escola vai precisar de um tempo para entender como seus alunos estão voltando, do ponto de vista de saúde, social e emocional. Não podemos sair cobrando bons resultados ou aplicar provas para medir o desempenho dos alunos, sem que eles antes possam entender todas as implicações da pandemia nos estudantes.”

A adoção de políticas intersetoriais, com as áreas da saúde, assistência social, cultura, pode ajudar a tirar a sobrecarga das escolas.
“Na pandemia, a escola comprou e distribuiu cesta básica e absorvente, ajudou a cadastrar famílias em programas sociais, identificou crianças em situação de vulnerabilidade. Ela teve um papel central nas políticas sociais. Para que os professores possam voltar sua atenção ao aprendizado, precisamos que as outras áreas se articulem em volta da escola para combater rapidamente os problemas que ela identificar”, diz Schneider.

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